Glossário
Como funciona a Câmara dos Deputados e o que significam os termos usados neste painel — de "votação nominal" a "índice de Rice". Para fontes de dados e como cada análise é calculada, veja a Metodologia.
Como funciona a Câmara
A Câmara dos Deputados é uma das duas casas do Congresso Nacional — a outra é o Senado Federal. Tem 513 deputados, eleitos por estado (e Distrito Federal) proporcionalmente à população, para mandatos de quatro anos.
Esse período de quatro anos é uma legislatura. A atual é a 57ª legislatura (2023–2027). Cada ano de trabalho é uma sessão legislativa. Ao longo da legislatura, mais de 513 pessoas chegam a exercer mandato: titulares saem (por licença, posse em cargo no Executivo, renúncia, morte) e suplentes assumem — por isso o painel contabiliza 665 deputados na 57ª, não 513.
A Câmara tem três funções centrais: legislar (criar e alterar leis), fiscalizar o Poder Executivo (convocar ministros, instaurar CPIs, pedir informações) e julgar em casos específicos (autorizar processo contra o Presidente, por exemplo).
O processo legislativo, em resumo
Uma ideia vira lei percorrendo, em geral, este caminho:
- Apresentação — um deputado (ou o Executivo, o Senado, cidadãos) protocola uma proposição.
- Comissões — colegiados temáticos analisam o mérito e a constitucionalidade, e produzem pareceres. É onde a maior parte das proposições fica (ou para).
- Plenário — se avança, o texto vai a voto pelos 513. Pode receber emendas e destaques.
- Revisão — aprovado na Câmara, segue para o Senado (ou vice-versa). Se a casa revisora mudar o texto, ele volta.
- Sanção ou veto — aprovado nas duas casas, vai ao Presidente, que sanciona (vira lei) ou veta. O Congresso pode derrubar o veto.
A maioria das proposições nunca chega ao plenário — fica em comissão ou é arquivada ao fim da legislatura. Por isso o volume apresentado é muito maior do que o de leis efetivamente criadas.
Tipos de proposição
As principais (a lista completa, incluindo requerimentos e emendas, está no glossário da página de Proposições):
- PL
- Projeto de Lei ordinária — propõe nova lei ou altera uma existente. Aprovação por maioria simples.
- PLP
- Projeto de Lei Complementar — regula matérias que a Constituição exige (ex.: sistema tributário). Exige maioria absoluta (257 votos).
- PEC
- Proposta de Emenda à Constituição — altera a própria Constituição. O rito mais exigente: 3/5 dos votos (308) em dois turnos, em cada casa.
- MPV
- Medida Provisória — editada pelo Executivo com força de lei imediata; o Congresso tem até 120 dias para convertê-la em lei, senão ela perde a validade.
- PDL
- Projeto de Decreto Legislativo — usado para ratificar tratados e sustar atos do Executivo. Não passa por sanção presidencial.
- MSC
- Mensagem — comunicação do Executivo ao Congresso (vetos, indicações, contas, tratados).
Como a Câmara vota
- Votação nominal
- Cada deputado registra seu voto individualmente (no painel eletrônico). É a única em que dá para saber quem votou o quê — e a base de quase todas as análises deste painel.
- Votação simbólica
- Decidida por acordo de lideranças ou aclamação, sem registro individual. Some do nosso radar de "quem votou como".
- Sim / Não
- A favor ou contra a proposta em votação.
- Abstenção
- O deputado está presente mas opta por não tomar posição.
- Obstrução
- Tática da oposição: os deputados deixam de votar para tentar derrubar o quórum e travar a votação. Conta como ausência de voto, não como "Não".
- Orientação de bancada
- Antes de uma votação, o líder de cada partido (ou bloco, ou do Governo) recomenda como a bancada deve votar. No painel, a orientação "Governo" é a do líder do Governo — base do governismo e da adesão.
- Quórum
- Número mínimo de presentes para votar. A maioria das matérias exige maioria simples (metade + 1 dos presentes); PEC e PLP exigem quóruns qualificados.
Como os deputados se organizam
- Partido
- Legenda pela qual o deputado foi eleito. Pode trocar de partido na "janela partidária".
- Federação partidária
- União de partidos que passam a atuar como um só no Congresso por pelo menos 4 anos. Na 57ª: PT-PCdoB-PV, PSOL-Rede e PSDB-Cidadania. A orientação de voto é dada pela federação, não por cada sigla.
- Bloco parlamentar
- Aliança temporária de partidos para ganhar peso na distribuição de tempo de fala, comissões e cargos. Menos estável que a federação.
- Líder
- Deputado que fala e negocia em nome da bancada, do bloco ou do Governo. Quem dá a orientação de voto.
- Bancada temática
- Agrupamento informal de deputados por causa (ruralista, evangélica, segurança…), reconstruído neste painel a partir das frentes e da classificação por tema. Um deputado pode estar em várias.
- Frente parlamentar
- Associação suprapartidária formal em torno de um tema (ex.: Frente da Agropecuária). Tem coordenador e centenas de membros; serve para articular pautas.
- Centrão
- Bloco informal de partidos de centro pragmáticos (PP, Republicanos, União, PSD, MDB…) que negociam apoio ao governo de plantão em troca de cargos e emendas. Decisivo para formar maioria.
- Espectro político
- Classificação editorial dos partidos numa escala esquerda · centro-esquerda · centro · centro-direita · direita · extrema-direita. É uma curadoria nossa, não uma medida estatística (ver Metodologia).
Termos das análises deste painel
As métricas de Comportamento de Voto cruzam os votos individuais com as orientações de bancada nas votações nominais da 57ª legislatura. Todas consideram apenas votos Sim/Não (obstrução e abstenção ficam de fora).
- Governismo
- De um deputado: o percentual dos seus votos Sim/Não que seguiram a orientação do líder do Governo, nas votações em que o Governo orientou.
- Adesão ao Governo
- O mesmo, agregado por partido. Classificamos em faixas: Base (≥ 80%), Centrão (60–79%) e Oposição (< 60%) — pelo voto, não por filiação formal.
- Disciplina partidária
- O percentual dos votos de um partido que seguiram a orientação do próprio partido (ou da sua federação). Mede o quanto a liderança "entrega" a bancada.
- Coesão (índice de Rice)
-
Mede o quão unida uma bancada vota — independentemente de qualquer orientação.
Em cada votação, pega-se a diferença entre os votos Sim e Não do partido e divide-se pelo total:
|Sim − Não| ÷ (Sim + Não). Se todos votam igual, dá 100 (coesão total); se a bancada racha meio a meio, dá 0. O índice do partido é a média disso em todas as votações. Diferença para a disciplina: a coesão olha só se os deputados votam juntos entre si; a disciplina olha se votam conforme a liderança. Um partido pode ser coeso votando contra a própria orientação. - Similaridade de voto
- O percentual de votações em que a posição majoritária de dois partidos coincidiu. Alta = votam junto; baixa = votam em lados opostos.
Presidencialismo de coalizão
É o nome que a ciência política dá ao arranjo brasileiro: como nenhum partido tem maioria sozinho, o Presidente precisa montar uma coalizão de vários partidos para governar, negociando apoio no Congresso em troca de ministérios, cargos e emendas.
É isso que explica um dado que, à primeira vista, parece contraditório no painel: partidos de centro-direita ou direita aparecendo com alta adesão a um governo de centro-esquerda. Não é alinhamento ideológico — é acordo político. Por isso a adesão ao Governo mede comportamento de voto, e não a posição no espectro.